13 dezembro 2016

Perfeição de Caráter, Perfeccionismo: A Natureza Pecaminosa

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Dando continuidade a análise bem franca que faço sem me levar por ninguém (na verdade, até agora, apenas conversei este assunto com minha noiva), por pesquisas, estudos e reflexões pessoais. Conversaremos sobre a questão da Natureza Pecaminosa Humana.

Vou-me basear nas ideias do Dennis E. Priebe (do Pacific Union Conferecen, Amazing Facts com mestrado em teologia na Andrews University) expressas no seu livro Face to Face With The Real Gospel ("Face a Face Com o Verdadeiro Evangelho") que ganhei do meu simpático amigo Mauro Carnassale - quando pude conhecer sua casa que é um verdadeiro refugio de muita paz e reflexão. Por que este livro? Bem, creio que ele resume bem o ponto de vista e as bases teológicas desta questão mais 'perfeccionista' sobre o caráter, digamos assim.

Antes deixo por expresso que não estou apresentando "o que eu acredito", ou "como eu explico isto", apenas estou avaliando e questionando esta ideia apresentada pelo Perfeccionismo e pelo Priebe. Ao mesmo tempo, não estou acusando-o de mentiroso, tampouco querendo inferiorizar de algum modo ele com relação a mim. Apenas estou raciocinando o que ele falou e sua ideia. Para mim, seria um momento muito gostoso e amistoso poder sentar com ele um dia para conversar sobre isso; quem dera, pudesse eu contribuir para seu entendimento.


Pontos Centrais
Existem alguns pontos centrais neste livro, alguns irei tratar posteriormente em outros post. Um dos pontos centrais e principais. (Digo que é muito mais do que 'apenas importante', é essencial.) Esta linha de raciocínio tem por fundamento a ideia de fazer uma distinção entre três coisas:
  • Natureza pecaminosa
  • Caráter pecaminoso
  • Perfeição absoluta
Na página 86 há um diagrama que diz basicamente que:
  1. todo ser humano nasce com uma natureza pecaminosa e esta é imutável, não está no nosso controle, não há decisões humanas nesta área e que ela só vai ser mudada na Segunda Vinda de Jesus, quando, num abrir e piscar de olhos [Uma referência, não escrita no livro, à 1 Coríntios 15:51-53] será removido esta natureza pecaminosa e passaremos a ter uma natureza perfeita, isto é, uma natureza impecável;
  2. separadamente, existe as nossas "escolhas". Toda vez que escolhemos pelo pecado, somos culpados, e nosso caráter não é perfeito. Nas entrelinhas, diz que o verbo 'escolher' e seus primos são o nosso caráter. E que na primeira vinda de Jesus, em sua morte na Cruz, Jesus venceu esta condição [a do caráter/escolha]. Ou seja, como isto lida diretamente com o nosso 'poder de escolha/decisão', então simplesmente podemos não escolher pecar. Mais do que isso. Um verdadeiro cristão, que submeteu a sua vontade a Jesus, vai submeter sua vontade/escolha à Jesus. Logo, passa a ter um caráter perfeito, isto é, impecável. Jamais pecará.
  3. Deus possui um outro tipo de perfeição. O que, no livro, Priebe chama de Perfeição Absoluta. A ideia é dizer que os anjos (por exemplo) não possuem esta perfeição absoluta, pois, Lúcifer pecou. Ou seja, seria como dizer que Deus é o único que em hipótese alguma é puramente impecável.
Esta é uma síntese. Todo o restante praticamente decorre destes 'axiomas' ou 'premissas' (como preferir).

Se o Priebe está fazendo grandes definições e especulações nestas afirmações e definições explícitas e nas entrelinhas, com certeza. Mas, por sua vez, ele aplica vários recortes dos textos de Ellen G. White e alguns textos da Bíblia que parecem se encaixar com estas ideias. Não será meu objetivo 'rebater' estes textos, mas sim, propor outras perguntas, análises, implicações, consequências para com estas afirmações que talvez, Priebe entre outros não consideraram ou desconheciam. O leitor, com isso, poderá ter um contra-ponto para fazer seus próprios questionamentos e chegar nas próprias conclusões.


1. A Natureza Humana e 1 Coríntios 15:51-53
Paulo, na carta aos Coríntios, é explicito em dizer que no evento final da Volta de Jesus e pouco antes da transladação dos santos teremos nossos corpos transformados. Todavia, chamo a atenção do leitor para que leia com pura atenção, 'sem vícios' este trecho da Bíblia e responda: Onde que diz que a 'natureza pecaminosa' é quem será transformada, removida? Por uma natureza perfeita? O leitor irá reparar que a única coisa que o texto deixa explicito é que o nosso corpo passará por uma transformação no sentido de se vestir de saúde plena, sem mais uma trajetória de morte, passará a ser um corpo  "revestido de imortalidade". Nada diz sobre a natureza pecaminosa.

O que seria a natureza pecaminosa que Priebe diz que perderemos na Segunda Volta de Jesus?
"A segunda definição de perfeição é a perfeição de natureza. Nossa natureza pecaminosa será removida apenas na segunda vinda de Cristo, pois após esse grande evento não haverá mais incitamentos pecaminosos provindos do íntimo. Dessa maneira, a perfeição de natureza, que envolve a remoção da tentação interior, somente terá lugar no momento da volta de Jesus. Não podemos desfrutar da perfeição de natureza antes disso." (livro citado, p.84)

Aqui tem um dos primeiros pontos polêmicos. O autor, Dennis E. Priebe, em nenhum momento diz 'de onde vem esta ideia', 'baseada no que', quais são os textos da Bíblia ou quais os textos do Espírito de Profecia (como Ellen G. White) dizem/afirmam isto. Esta ideia central do autor salta das páginas do livro sem dar um único texto da Bíblia. É uma definição puramente arbitrária (pelo que me parece), ou que talvez esteja em algum outro texto/livro/artigo do autor que não tive conhecimento. O mais próximo de uma 'argumentação' ou 'tentativa de embasamento' está no começo do livro, no capítulo "O que é pecado?". Porém, neste capítulo, é nebuluso, tão quão; não deixa nada claro, tampouco demonstrado por A+B. O máximo que há são alguns recortes (2-4 linhas) de citações de um tal de Emil Brunner, de João Calvino, Geoffrey Paxton e Desmond Ford. [nada de Bíblia]

Na melhor das hipóteses, a única coisa que consegue afirmar melhor é que existe uma maldição do pecado que resulta na morte física. Ou seja, o autor, ao fazer uma relação de "natureza pecaminosa" (na definição dele) com esta maldição física da morte, conclui que , como em 1 Corintios diz que o corpo será revestido de imortalidade, logo, TODO EXTRA que ele definiu/atribuiu também será 'solucionado' [digamos assim] nesta mesma transformação do corpo.

Evidentemente, o grande problema aqui do autor é o seu abuso de linguagem e de definições arbitrárias sem embasamento. Assim como, não havendo bases bem definidas para tais definições, faz relações extrapoladas sem critérios (quase que vale tudo - note, que o autor poderia fazer diversas outras extrapolações do mesmo modo). Aparentemente, uma especulação que pode ser verdadeira como falsa. E depois decorre toda uma teologia fundamentando-se nisto. Mas vejamos outros pontos que colocam um pouco em xeque esta ideia - ou que, pelo menos, "Veja, não é bem assim.".


2) Um fato que contradiz a definição e 'profecia' do autor
Como destacado acima, ao definir esta Natureza Pecaminosa, o autor disse explicitamente:
"pois após esse grande evento não haverá mais incitamentos pecaminosos provindos do íntimo. ... a remoção da tentação interior, somente terá lugar no momento da volta de Jesus. Não podemos desfrutar da perfeição de natureza antes disso."

Isto é uma falácia. Digo isto por experiência própria e pela experiência de outras pessoas. Há os mais diversos 'incitamentos pecaminosos provindos do íntimo' e 'tentações do interior' que eu e outras pessoas - provavelmente o leitor - deixara de ter ao longo do tempo. Particularmente posso destacar o desejo mais íntimo que eu já tive por sorvetes, doces, refrigerantes, criar rancor e raiva das pessoas, querer brigar etc. Inclusive, recordo-me exatamente do primeiro dia em que, após uma pessoa na escola (Ensino Médio) ter me provocado muito eu fiquei extremamente surpreso comigo mesmo de não ter tido a menor incitação, tentação, vontade, desejo de querer revidar e socar a cara da pessoa [o que seria o natural anteriormente]. Eu fiquei tão surpreso neste dia que exclamei um "Ual!" comigo mesmo e fiquei pensando nisto e agradeci a Deus.

O autor definiu explicitamente "Não podemos desfrutar" desta condição antes da volta de Jesus. Então eu pergunto: "Como foi que então eu desfrutei?" E, certamente, se você fizer uma retrospectiva perceberá que também ocorreu com você.

Talvez ele queira dizer: Mais nenhum tipo de tentação ao mesmo tempo. O autor não trata da questão que, suponha que hoje você tenha 100 tentações internas de intensidade forte; com o tempo, pode ser que até a sua morte, você esteja com 20 ou 30, de intensidade média-baixa. Isto não seria um desfruto desta bênção (em modo parcial)? Além disso, como mensurar, distinguir o que é "interno" ou não? Segundo o autor, estas tentações internas não seria perceptíveis, racionáveis, em que a pessoa pode decidir sobre tal. Note, que, desta maneira, pode ser qualquer coisa, assim como a Energia Escura da Física. Mas, se não é perceptível, raciocinável, então não notamos. Não consideramos/atribuímos nenhum valor. Dizer que o único impacto disso seria a morte é questionável.

O ponto é: Há coisas demais aqui. O fato de ter perdido muitas destas 'tentações internas' contradiz o autor? Ou não são 'internas'? Porém, se não são perceptíveis/raciocináveis/discernidas, são tentações?


3) O Problema da Tentação Humana
Evidentemente o autor tentou encontrar algum tipo de explicação, definição. Algo que pudesse ser escrito no papel que descrevesse o que é esta condição da natureza humana. Que é intrigante.

Note que Gálatas 5:17-21 é dito que a 'carne' não apenas promove uma incitação ou tentação. Na verdade, diz que promove ações, como a "cobiça" e, mais explicitamente, "as obras da carne". Ou seja, usando a própria definição do autor e relacionamento esta Natureza Pecaminosa com a Maldição do Pecado e o Corpo Pecaminoso, teríamos que tais coisas (pecados) são, na verdade, ações/práticas. E que, segundo os versos 22-25 podemos vencer todas estas ações, praticando outras no lugar. Ou seja, no lugar de prevalecer a Natureza Pecaminosa, prevalece o Espírito Santo. É uma declaração de vitória agora mesmo, antes da Volta de Jesus; o que contraria a ideia de 'apenas' na Volta de Jesus.


4) Sem Luz
Por certo, este assunto da Natureza Pecaminosa do homem é um dos assuntos mais obscuros para Priebe, pois ele foge do assunto por diversas vezes em seu livro. Nem 10% do seu livro busca tratar ou pensar sobre isto, mas se foca mais no ponto 2: o caráter perfeito.

O grande problema é que há pouquíssima informação (luz) na Bíblia e no Espírito de Profecia sobre a Natureza Pecaminosa do homem. E o autor tenta encaixar e definir coisas que são grandes mistérios não revelados e acaba entrando em terreno desconhecido e criando estas conclusões e definições equivocadas.

Por exemplo. Segundo a Bíblia, vemos uma aparente contradição. Em Tiago 1:14 diz explicitamente que somos tentados por nós mesmos ("pelo próprio mau desejo"). Mas, ao mesmo tempo, em Tiago 4:7 diz para resistirmos ao Diabo, ao invés de nós mesmos. Já Provérbios 1:10 diz que os outros podem nos tentar. E Mateus 4:1 e 1 Tessalon. 3:5 dizem que o diabo é o tentador. Ou seja, de onde procede a tentação? De nós mesmos, dos outros, ou diabo? No pecado do Éden, vemos explicitamente que Satanás foi quem tentou. Mas, primeiramente, o que tentou Eva a se afastar do marido e aproximar da árvore proibida? E Satanás, de onde veio a tentação primária?

Veja que não há uma resposta e definição simples para o que é e de onde vem esta tentação. Tentar explicar isso é erro certo (há coisas do lado de fora de onde apontamos). Repare na implicação contraditória que há quando o autor diz que no Céu, devido a passarmos a ter uma natureza impecável, será 'impossível' haver 'tentação'. Porém, por uma ideia maior que não irei desenvolver, no Céu teríamos uma condição semelhante de Adão e Eva antes do pecado, assim como dos anjos. Mas isto não resolve o mistério da 'tentação primária' qual ocorreu a Lúcifer e Eva. E é mistério dizer se esta 'nova natureza' que teremos estará impossibilitada de tal. [Se sim, nos levaria a uma contradição de que Deus ofereceu uma condição mais desprivilegiada a Lúcifer e Eva; ou que o "livre-arbítrio" foi 'modificado/mudado', que passou a ter um upgrade pois o de antes 'apresentou problema'... o que implicaria na falha do Programador.] Há um mistério envolvido no livre-arbitrio (sabemos dizer esta palavra, temos uma 'noção' desta ideia, mas não sabemos exatamente o que ela é, qual a % que conhecemos desta ideia?)

A tentação, assim como o pecado, é um mistério enorme para qual não há uma explicação. Tal não nos foi revelado. Muita coisa não foi revelada. E inferir sobre o que a Bíblia não diz, pode nos conduzir em especulações perigosas. Por vezes sutis, que até podem fazer sentido se anularmos ou eliminarmos um monte de variáveis. Mas que nos levam a construir um prédio de ideias errôneas ou misturas entre verdade e mentira.


5) O que o autor diz contradiz com Ellen G. White
Veja:
"Cristo veio ao nosso mundo porque viu que os homens haviam perdido a imagem e a natureza de Deus. Ele viu que eles tinham vagueado longe do caminho da paz e pureza, e que, se ficassem entregues a si mesmos, jamais encontrariam o caminho de volta. Ele veio com uma salvação plena e completa, para transformar nosso coração de pedra em coração de carne, para transformar nossa natureza pecaminosa na Sua semelhança, de modo que, sendo participantes da natureza divina, sejamos habilitados para as cortes celestiais." Youth´s Instructor, 9 de setembro de 1897. Pag. 26

O texto acima deixa explicito que quando Jesus veio, na Sua primeira vinda (no sentido da encarnação, morte e ressurreição), deixa claro que veio para uma "salvação plena e completa", ou seja, não era apenas sobre o caráter, ou sobre as nossas escolhas, como afirma categoricamente Priebe em seu livro. Mais do que isso, deixa, por explicito, que esta obra que Jesus fez também implica "para transformar a natureza pecaminosa na Sua semelhança". Ou seja, o que Priebe disse que só ocorreria na Segunda Volta de Jesus, White diz que Jesus já "veio com uma salvação plena e completa", tanto sobre "nosso coração de pedra" quanto para "transformar nossa natureza pecaminosa" (o que o autor disse que só ocorreria na APENAS Segunda Vinda, não na primeira).

Ellen White também coloca, por diversas vezes, que há uma união íntima, como que inseparável, entre corpo, mente e espírito. De forma geral, uma tremenda ligação entre a carne e o caráter do cristão. Logo, se a carne é fraca, isto é, com natureza pecaminosa, como o caráter poderia ser perfeito e impecável se, segundo o autor, a vitória final sobre a natureza pecaminosa só ocorreria na Volta de Jesus? Há uma antítese aqui. A única solução plausível para se afirmar o perfeccionismo de caráter antes da volta de Jesus seria o de fazer uma separação por completo entre Caráter/Mente/Espírito de um lado e 'o corpo' com sua natureza pecaminosa do outro. Todavia, esta separação causaria muitos atritos com outros textos e posições de Ellen White, inclusive como faria a Mensagem de Saúde entrar em xeque em vários pontos e razões. Talvez o leitor não tenha pensado nisso. Sugiro que faça um longo exercício mental sobre isto. E observará que algumas coisas deixam de fazer sentido se assumir esta premissa. Uma cocha de retalhos seria necessário.

Veja essa relação íntima:
"É a fragrância do mérito de Cristo que torna nossas boas obras aceitáveis a Deus, e é a graça que nos habilita a praticar as obras pelas quais Ele nos retribui. Nossas obras, em si e por si mesmas, não têm mérito algum. Quando fizemos tudo que nos era possível fazer, devemos considerar-nos servos inúteis. Não merecemos agradecimentos de Deus. Só fizemos o que era nosso dever, e nossas obras não podiam ter sido realizadas na força de nossa própria natureza pecaminosa." ME3, 200

O texto acima deixa explícito uma relação inseparável entre as nossas obras (o que incluí nossas escolhas, decisões, discernimento, feitos, ações) 100% conscientes e a nossa natureza pecaminosa. E tal é a força desta relação que a 'natureza pecaminosa' (ou algum outro tipo de imperfeição/pecaminosidade do homem) anula qualquer coisa favorável (leia-se, perfeita) de nossas obras/ações/escolhas/decisões - isto é, caráter, segundo Priebe.
Outro ponto enfatizado é que o que torna nossa obra/caráter aceitável/perfeito não é são nossas escolhas em si, mas a graça de Cristo, Seu mérito. Sendo que, em outras páginas, o autor não coloca assim a ação de Jesus, mas como que Ele concede-nos o poder para fazermos uma obra que seja, por si, aceitável, meritocrática.

Em outras palavras. O texto de Ellen G. White acima seria como uma escola em que a média para aprovação é nota 10. E o professor é Jesus que dá uma aula perfeita e todas as condições para o aluno ir bem na prova. O aluno faz a prova e tira uma nota 0 (incapaz de tirar uma outra nota - como alguns professores de Matemática que tive na Universidade); mas, o Professor considera este aluno como um aluno nota 10, e o aprova.
Do outro lado, a definição dada por Priebe é mais no sentido de que o professor Jesus, deu uma aula espetacular, forças e todas as condições para o aluno, agora, conscientemente tirar a nota 10 - mais do que isso, como se Jesus estivesse fazendo a prova por ele, ou ao seu lado passando cola. Se, o aluno tirar 10, então Jesus o aprova. Se, após toda esta intervenção de Jesus, o aluno continuar a tirar nota 0, então Jesus o reprova. [Repare como estas duas formas de pensar impactam muito a vida emocional, teológica e prática de um cristão.]
Particularmente, acredito que o verdadeiro ponto que Jesus avalia não é o previsível zero tirado na prova. Mas em como o aluno se portou com Seu professor nas aulas, nos estudos, como tentou resolver os exercícios da prova etc. Na verdade, mais intrigante do que isto. É muito misterioso o que é a Graça.


6) Como explicar a natureza de Jesus?
Não falei sobre isto aqui, pois será um dos temas a ser futuramente abordado. Mas a Natureza de Jesus Cristo é um dos principais motivos que incita estas "definições" e "conclusões" do autor deste livro, assim como grande parte da Teologia da Perfeição de Caráter Perfeccionista. Com qual tipo de natureza pecaminosa Jesus veio a este mundo? Como assim Ele foi tentado em todas as coisas e não pecou? Como assim como Ele venceu podemos, nós, vencer também? Dentre outros.

Antes, já dou uma prévia do que penso quanto a isto: É um mistério. Não tentemos pois 'definir' com palavras, ideias, lógica e linguagem humana o nascimento, o corpo, a mente, as tentações, tampouco a natureza de Jesus. Entraremos num campo misterioso, não revelado. E, se especularmos, podemos cair em conclusões equivocadas que implicaram, por efeito dominó, numa série de outras conclusões e ideias. [Veja se nos links abaixo já está disponível o estudo sobre esta questão.]


7) E as 'contradições' de Ellen G. White?
Também trataremos de um outro estudo apenas para falar sobre os preciosos textos deixados por Ellen G. White. Mas repare que, num dos textos acima que coloquei, deixa evidentemente claro que ela diz que Jesus, ao vir como Salvador neste mundo, Ele também concedeu a vitória e transformação sobre a natureza pecaminosa. Porém, EGW diz, em outros textos, por vezes, que ainda convivemos com esta tal de natureza pecaminosa. E agora?

Gosto (amo) de colocar sempre os dois lados da moeda sempre que possível. Os prós e contras. Os textos que a principio dizem A, e os textos que a principio dizem um B diferente de A. E acredito que isto deveria nos despertar a sermos mais cautelosos ainda mais para quem escreveu mais de 5.000 artigos e 49 livros. Não podemos nos resumir, 'fechar', 'concluir', 'solidificar' apenas com uma porção de 2 frases, ou 10 parágrafos, ou uns 3 ou 5 capítulos, ou 1 ou 2 livros que lemos. Ela era humana, tinha limitações de linguagem, de pensamento, comunicação e palavras, qual todos temos, que vemos evoluir/desenvolver tal habilidade ao longo de sua vida. Cuidado quando você lê um texto fabricado por alguém que tem apenas textos dizendo A, sem jamais nem sequer dizer que existe um texto dizendo B. [Pense nisso.]


8) Paradoxo do Corpo x Templo
"Ou não sabeis que vosso corpo é o templo do Espírito Santo, que habita em vós." (1 Coríntios 6:19). Se buscarmos uma definição tão engessada e simplória sobre a relação do nosso corpo com a natureza pecaminosa. Chegaríamos num paradoxo, uma aparente contradição: Como pode haver uma Natureza Pecaminosa, e uma propensão, ou incitação, ou tentação a pecar, onde o Espírito Santo (o próprio Deus, o próprio Jesus) habita? Segundo a Bíblia, não é apenas na definição 2 do autor (no nosso caráter, mente que decide). Vemos claramente uma relação íntima entre nosso caráter e nosso corpo, com Deus agindo e ambos - agora, no presente.

Faço uma analogia das palavras do Priebe na página 85: "Cristo dentro - pecado fora. Pecado dentro - Cristo fora." Então não poderíamos dizer "Espírito Santo habitando em vosso corpo - natureza pecaminosa fora. Natureza pecaminosa dentro - Espírito Santo fora"? Se não, por que não poderíamos afirmar isto segundo as próprias razões usadas pelo autor para fazer a afirmação primeira?


Para encerrar
Em todos os estudos sobre este tema, buscarei deixar algo para o leitor pensar. Hoje, um texto de Ellen G. White que contesta algumas implicações ao perfeccionismo, o caráter perfeito, especialmente, ao deixar claro no texto a ideia que no decorrer da vida, a gente acaba caindo (pecando) - sim, Ellen White também se incluiu.

"A negação de Cristo por parte de Pedro, a viva contenda entre Paulo e Barnabé, as falhas e fraquezas dos profetas e dos apóstolos, todas são expostas pelo Espírito Santo, que descerra o véu do coração humano. Ali se acha diante de nós a vida dos crentes, com todas as suas faltas e loucuras, o que visa uma lição a todas as gerações que os seguissem. Houvessem eles sido isentos de fraquezas, teriam sido mais que humanos, e nossa natureza pecaminosa desesperaria de atingir nunca a tal grau de excelência. Vendo, porém, onde eles lutaram e caíram, onde se animaram outra vez e venceram mediante a graça de Deus, somos animados e induzidos a avançar e passar por cima dos obstáculos que a natureza degenerada nos coloca no caminho." TS1, 438

Este texto não transmite um ideia do tipo: "pode perder algumas batalhas, mas a guerra está ganha pela graça de Deus. E isto é o que encoraja a prosseguir mesmo após as derrotas."?  Não é diferente da ideia perfeccionista de que "só se vence a guerra quando não mais perder nenhuma batalha."? Há textos que colaboram com qual ideia ou ambas?

"Homens a quem Deus favoreceu, e a quem confiou grandes responsabilidades, foram algumas vezes vencidos pela tentação, e cometeram pecado, mesmo como nós [+Ellen White], presentemente, esforçamo-nos, vacilamos, e freqüentemente caímos em erro. Sua vida, com todas as suas faltas e loucuras, estão patentes diante de nós, tanto para a nossa animação como advertência. Se eles fossem representados como estando sem faltas, nós, com a nossa natureza pecaminosa, poderíamos desesperar-nos pelos nossos erros e fracassos. Mas, vendo onde outros lutaram através de desânimos semelhantes aos nossos, onde caíram sob a tentação como o temos feito, e como todavia se reanimaram e venceram pela graça de Deus, animemo-nos em nosso esforço para alcançar a justiça. Como eles, embora algumas vezes repelidos, recuperaram o terreno, e foram abençoados por Deus, assim nós também podemos ser vencedores na força de Jesus." PP, 238


Próximos estudos:

  • Introdução: Uma História; [Ver]
  • caráter perfeito;
  • impecabilidade do homem;
  • perfeição plena antes do fechamento da Porta da Graça;
  • definições de palavras/ideias (pecado, dentre outros);
  • Ellen G. White e os 'outros textos esquecidos' sobre isso;
  • natureza e vida de Jesus.

09 dezembro 2016

Perfeição de Caráter, Perfeccionismo & Uma História

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Pretendo falar sobre um assunto que tem sido alvo de alguns grupos protestantes, evangélicos, e, especialmente, de muitos adventistas. Caso o leitor não faça parte destes, não está acostumado ou inteirado sobre Cristianismo e Bíblia, talvez não seja o post mais ideal para o leitor ler [pois é muito peculiar]; mas está convidado a ler se desejar.

Um Começo = Segunda Chance
Sou adventista do sétimo dia de berço, tomei a decisão pelo batismo aos 12 anos, porém, mais 'racionalmente consciente' (digamos assim) considero que uma grande experiência de 'conversão' e aceitação, 'de fato', da fé cristã só ocorreu por volta dos 16-17 anos. Nesta época, vivi coisas que foram incríveis e pouco comuns. Por exemplo, tinha uma fome tão tremenda de aprender e estudar a Bíblia que era comum passar mais de 4-6 horas por dia, ou entrar madrugada a dentro devorando as páginas de várias versões da Bíblia e outros livros (especialmente do chamado 'Espírito de Profecia' ou, escritos por Ellen G. White). Entre diversos outros. Acredito que numa janela de 2 anos, estudei mais profundamente a Bíblia e diversos livros, artigos dentre outros conteúdos teológicos, do que muito teólogo e da maioria dos crentes que conheço com décadas 'de cristãos'. Não digo isto para comparar e dize ser eu superior em algum sentido, quantidade também não é sinônimo de qualidade, e, a maioria da sabedoria mesmo, de fato, não se vem com 'uma base de dados grande' e sim com 'a experiência' do tempo [o que, muitos ganham de lavada de mim]. Mas confesso que estudei de um jeito... foi um fenômeno que me marcou! E eu não gostava de ler. Hoje acredito que foi um tempo que Deus usou para eu ganhar o tempo perdido e usufruir de um período da vida em que teria muito tempo livre qual não teria mais após entrar na faculdade e começar a trabalhar.

O que me levou a esta conversão? É difícil dizer. Antes achava ser mais simples, hoje há mais mistérios do que respostas em minha mente. Mas diria que foi uma consciência profunda e verdadeira de que 'não sou ninguém', 'sou um pecador terrível' e uma necessidade única e genuína de segunda chance na vida. A minha primeira grande conversa com Deus, neste sentido, foi: "Deus me de apenas uma segunda chance". Ainda numa mente imperativa de adolescente, não imaginei que eu precisava, de fato, de "n-chances" (com n tendendo ao infinito) - ainda preciso.

A Segunda Chance = Tudo ou Nada
Neste início, eu era um SUPER LEIGO a respeito da Bíblia. Confesso que, 'Jesus'?, não sabia o que significava este nome. Era apenas mais um nome/personagem da Bíblia. Logo entenda que eu não sabia e pouco compreendia muita coisa, mas eu devorava a Bíblia. O primeiro grande assunto que estudei (com muita limitação e dificuldade) foi o "Perdão". E o que eu entendi foi:

  1. Não importa o que fiz/passado, Deus perdoa, dá um 'novo start'/começo, do zero;
  2. Estaria perdoado de tais, mas colheria muitas consequências;
  3. Não poderia errar de novo;
  4. Precisava aprender a fazer tudo perfeitamente certo.
Este pensamento esteve presente no meu dia-dia. E, de algum modo, eu digo que houve um tempo em que, na minha consciência (em tal época), eu tinha obedecido tudo 100% certo/correto. Foi uma época de grandes mudanças na minha vida. Neste processo me tornei vegetariano (sou até hoje), parei de tomar derivados de leite, açucares refinados, entre diversas abnegações; parei de ver TV. Passei a ler muitos livros em pouco tempo; 90% do que ouvia era Arautos do Rei; passei a almejar/sonhar e querer ir à igreja toda semana e quase todos os dias. Criei e desenvolvi o hábito de dormir cedo (no máximo às 22h30, após ler a Bíblia e ler alguns capítulos de outros livros). Despertava sozinho entre 6-7horas. Preparava meu café da manhã, com suco natural, pão integral caseiro, e outras coisas; pegava a bicicleta ia até um parque e corria ali. 1 à 2 horas de exercícios físicos toda manhã! Voltava, tomava um banho gelado/frio (pois quente agrediria o meu corpo, não era o melhor para saúde). Depois estudava 1-3h de Bíblia e um pouco para o vestibular. Almoçava um belo prato vegetariano. Ia para o cursinho pré-vestibular e estudava. Nos intervalos entre aulas e para lanche, lia diversos textos/livros/materiais sobre saúde e costumava me retirar para algum lugar para orar. Voltava, estudava mais um pouco. Comia. E ouvindo Arautos do Rei, estudava a Bíblia, Espírito de Profecia, até então, por volta das 22h-22h30 dormia. Todos os dias. [E quantas vezes não esperei todos dormirem para poder ficar mais à vontade conversando longas horas com Deus.] - Como era bom. - Havia dias em que me sentia tão feliz que cada célula do meu corpo rejubilar de energia, alegria e paz.  Minha memória absorvia tudo com uma tremenda facilidade, era uma verdadeira esponja de decorar, absorver, assimilar e guardar. Decorava [mesmo sem querer ou me preocupar em decorar], qual livro e página estava diversas citações/versos que eu tinha na ponta da língua. Amava ajudar os outros. Era comum me pegar pensando no que podia fazer pelas pessoas. [Aqui vai informação inédita, não contada para ninguém até hoje.] Eu fiz alguns pequenos folhetos/convites/mensagens/CDs e que eu entregava para as pessoas nas ruas, ônibus, nos parques, vários amigos não cristãos; às vezes preparava lanches para dar para os moradores de rua e sentia mais profunda compaixão por eles: "eles precisão de mim". Era um ímpeto tão forte de querer levar luz para eles, ajudá-los que minha maior angústia era 'ficar parado e não fazer nada'.

Nesta época, surgiu, algumas vezes, algo que hoje chamo de 'orgulho'. Orgulho Religioso. De algum modo, eu me sentia como 'mais próximo', 'santo' - ou fazendo as coisas que Deus pedia - do que os demais. Por quê? Porque não os via fazendo, falando, etc. o mesmo; não parecia haver o mesmo ímpeto. [pelo contrário, era comum me chamarem de radical, fanático, extremista e sinônimos] 

Recordo claramente do dia em que, numa classe de estudos na Igreja, eu me dei conta que não lembrava mais a última vez em que tinha tido gases, espirrado (isto que tinha rinite alérgica hereditária), tossido, bocejado, sentido fraqueza ou qualquer sinal de saúde debilitada e, então, vi uma garota doente na igreja. Julguei  algo do tipo: "Ela está assim porque não segue os princípios de saúde que eu estou seguindo. [me incomodava ouvir o som de alguém tossindo na igreja. Eu pensava: adventista hipócrita que não segue os 8 Remédios." Até hoje luto contra um preconceito com irmãos com uma pança/barriga avantajada ou provável IMC alto. "Isto que ela é de 'muito mais tempo de igreja' e 'cantava no coral'" [o que eu pensava ser 'OOO coral das pessoas mais santas do mundo'].

Era simples, na minha mente, Deus revelou os 8 Remédios Naturais, se as pessoas seguissem perfeitamente tais, desfrutariam de plena saúde e sarariam de qualquer doença. Lembro do dia em que li o capítulo que falava sobre Enoque no livro "História da Redenção". E eu chorei, como eu chorei [sou difícil de chorar], como se pudesse sentir conta letra falando ao meu coração. Em minha mente, eu me senti na pele de Enoque e fiquei sinceramente imaginando/acreditando que eu poderia ser transladado a qualquer momento como ele fora - era meu maior desejo. Eu me perguntava o que faltava para eu ser também.

Biscoito de Maisena
Well, nem tudo são rosas. Um dia, havia um pacote de bolachas de maisena na cozinha (deixada pelo meu pai). Há mais de 8 meses eu não comia praticamente nada com 'cara de bolacha', ou de origem industrial duvidosa. Diferente de todos os demais dias, neste dia me senti na pele de Eva com a Árvore do Conhecimento. Comer ou não comer? Não estava com fome. Não precisava comer. Podia não comer. Indesculpável, mas eu escolhi comer aquele biscoito de maisena.

O biscoito de maisena foi um marco na minha vida. Pouco tempo depois eu cai na profunda consciência de que eu era um pecador. E, de repente, não sei explicar isto, mas foi como se abrissem meus olhos para observar que havia 'muitas coisas' que me convenciam de que eu era o maior pecador do mundo [não digo porquê, pois não faria o menor sentido para as pessoas que já acham um absurdo me sentir um pecador por causa de um biscoito]. E, no meu ver, eu pequei novamente pois tinha prometido que faria tudo certo com a minha segunda chance, mas eu joguei a segunda chance no lixo.

Chutar o Balde
A consequência disso foi que desisti. Chutei o balde. Não porque não gostava de querer buscar a Deus. Mas porque me sentia um hipócrita e derrotado. Me veio uma consciência tão clara que, ainda durante a minha vida, eu provavelmente iria comer este e outros pecados. E chutei o balde. Desisti. Dias/semanas depois, alguns amigos perceberam minha atitude e vieram atrás de mim, especialmente um amigo muito querido que foi primordial para eu ter 'minha segunda chance'. [Parecia o caso dos amigos de Ló.] Ele tentou me mostrar que eu não deveria agir assim, chutar o balde. Mas não adiantava, nenhum de seus argumentos me convencia. Pois em 'minha base bíblica' e do 'Espírito de Profecia' de que quem é nascido em Deus não peca, Deus torna perfeito o homem, vence o pecado e etc, que quem peca é filho do Diabo e etc. Era 8 ou 80. Não tinha esta de mais ou menos.

Para cada palavra e texto dele, eu tinha outros textos que deixavam claramente minha posição 'perfeccionista' e, mais claro ainda, de que, se eu realmente tivesse me convertido e entregado minha vida a Deus, eu nunca mais teria pecado como fiz. Logo foi tudo vão, uma mentira/fantasia de santidade e perfeição em minha mente. E, por eu ter pecado e viver em pecado, a vergonha me cobria; me achava o mais indigno de todos. Nem me passava pela cabeça a ideia de tentar conversar com Deus novamente e pedir perdão. Para mim isto soava como "Seu hipócrita cara de pau! Ele sabe que você pecará novamente algum dia. E olha as coisas que você está fazendo. Você jogou fora sua segunda chance.". Até mesmo pensamentos de "Então, por que viver?" me transpassaram. E quero deixar claro que para quem viveu a experiência que eu tive/vive com Deus, não tinha mais o menor sabor ou desejo também querer 'viver a vida sem Deus', não tinha mais gosto depois de ter experimentado a água viva.

Saindo da Buraco
Não me recordo exatamente como foi que voltei atrás. Em especial alguns pastores e palestrantes como o Pr. Rafael Rossi, Pr. José Armando Kowalzuki e alguns amigos. E, apesar dos meus intensos estudos, muita coisa na Bíblia ainda não havia passado pelos meus olhos e eu nem imaginava (hoje ainda creio que pouco conheço deste livro). Me deparei com ideias do que os teólogos chamam de "Graça", e um entendimento um pouco mais profundo sobre Jesus (demorou +1 ano para saber o que significava "Evangelhos") e sobre o perdão. Como em Mateus 18 dizendo que o perdão deve ser dado infinitas vezes, 70x7 (simbolicamente). Confesso que não entendi isto, mas uma esperança reacendera. Embora nunca mais foi como antes. Perdi a ingenuidade. Passei a conviver com um profundo senso como de Davi no dia-dia:

"Porque eu conheço as minhas transgressões, e o meu pecado está sempre diante de mim.
Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que é mal à tua vista, para que sejas justificado quando falares, e puro quando julgares. Eis que em iniqüidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe." Salmos 51:3-5

Foi em torno de 1-2 anos, até ter terminado de ler alguns livros (como História da Redenção, Caminho para Cristo e 95 Teses Sobre Justificação Pela Fé de Morris L. Venden) que me ajudaram a entender um pouco mais sobre este conjunto tão intrigante e paradoxal de ideias que hoje comumente chamamos de Graça, Justificação pela Fé e Obediência. Também, nesta época, conheci uma nova palavra "Legalismo" ou "Legalista" e compreendi que, no início desta jornada, eu, de fato, tive um pensamento puramente legalista: "Era eu que agia. A salvação ou não, tudo dependia exclusivamente de mim. Ou eu escolhia ser perfeito como Enoque, e era, diariamente, ou já era." Mas sei hoje que foi puramente genuino minha fé "legalista por ignorância". Outro texto recordo que me intrigou muito:

"Encheu-me de amarguras, fartou-me de absinto. Quebrou com pedrinhas de areia os meus dentes, cobriu-me de cinza. Alongaste da paz a minha alma; esqueci-me do que seja a felicidade. Digo, pois: Já pereceu a minha força, como também a minha esperança no Senhor. Lembra-te da minha aflição e amargura, do absinto e do fel.

Minha alma ainda os conserva na memória, e se abate dentro de mim. Torno a trazer isso à mente, portanto tenho esperança. A benignidade do Senhor jamais acaba, as suas misericórdias não têm fim; renovam-se cada manhã. Grande é a tua fidelidade. A minha porção é o Senhor, diz a minha alma; portanto esperarei nele.

Bom é o Senhor para os que esperam por ele, para a alma que o busca.
Bom é ter esperança, e aguardar em silêncio a salvação do Senhor.
Bom é para o homem suportar o jugo na sua mocidade.
Que se assente ele, sozinho, e fique calado, porquanto Deus o pôs sobre ele."
Lamentações 3:15-28

Este, como todo restante de Lamentações me subjugava de tal maneira que era como se Jeremias tirasse as palavras do mais profundo do meu coração e adicionasse ideias e elementos de esperança e misericórdia que eu nem imaginava, não compreendia.

Com o tempo, aprendi mais algumas coisas e a distanciar ainda mais meus pensamentos de ideias e concepções legalistas ou com cara disto (hoje me parecem tão absurdas que para cada 'defesa de tal' automaticamente me vem 10 questionamentos, contradições e refutações). Ao mesmo tempo, há coisas que permanecem como tremendamente misteriosas. Por exemplo, a Justificação pela Fé e as Obras. Parece que há uma barreira/divisória (pelo menos no mundo das ideias, ou como escrevemos no papel); mas, em termos práticos, no dia-dia, no que vemos, é tão tênue que é difícil distinguir. E, por vezes, notei, que a maioria das dificuldades e problemas não são aquilo que é 'físico', que podemos ver, mas o que não vemos. Quero dizer que duas pessoas podem estar praticando exatamente a mesma ação no mundo sensível (inclua até mesmo ambas com a mesma teologia em mente), porém, uma pecando por legalismo, e outra justificada pela fé, perfeita em Cristo. Como distinguir?

Predestinação & Méritos x Vontade
Continuo esta primeira conversa/exposição sobre este tema (que estou me aprofundando mais, com o intuito de 'ajudar' meus amigos que estão com pensamentos flutuando aos ventos do perfeccionismo e, por vezes, andando em águas que beirão ao oceano do legalismo e farisaísmo) com uma outra experiência que me foi marcante.

Alguns meses - talvez anos - após este ocorrido, me deparei com um conjunto de textos que falavam mais sobre 'os méritos de Cristo', sobre a 'predestinação à salvação' e, especialmente, quanto 'a morrer para o eu', entregar minha vontade, escolha e decisões para Jesus. Ou seja, cavando mais a fundo a ideia de, como diz a letra do Arautos do Rei, "Eu não sou mais eu. Cristo vive em mim.". Um dos textos diz: "efetuai a vossa salvação com temor e tremor;" Filipenses 2:12 Mas, como assim 'operar a vossa salvação'? O que isso quer dizer? Não é o sangue de Cristo que salva? Não fui predestinado a ser salvo? Na Cruz Jesus não operou/efetuou o plano da salvação, de salvar o homem do pecado? E agora? Como assim é o homem que efetua sua salvação?

Isto até me balançou forte no sentido de pensar que podia ser uma grande contradição na Bíblia. Mas note que o verso seguinte é mais polêmico ainda "porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade." (v.13) Parece ser mais contraditório ou estranho ainda, mas anula a suposta contradição anterior. O texto trás uma ideia que hoje podíamos fazer a seguinte analogia: "Robô R2 efetue tal coisa, pois Seu Sumo Programador e Controlador te projetou, te programou, e é ele que digita no teclado e opera para você fazer tal e tal movimento ou falar tal e tal coisa." É no mínimo estranho. Mas eu entendi que isto era algum tipo ideia de que se eu render totalmente a Deus, Deus me controlaria e faria tudo como um mero 'fantoche' ou 'trompete tocado pelo músico'; a forma mais direta deste texto nos dá a ideia de "fim do livre-arbítrio" e a imputação do que alguns chamam de "caráter perfeito" e "impecabilidade".

Mas vejamos aconteceu comigo (como depois soube que com vários outros) de terem profundamente rogado, pedido a Deus que Deus fizesse exatamente isto! De 'retirar o meu livre-arbítrio' (repare as aspas) e operar em mim tudo o que eu falasse, pensasse e fizesse. Eu dava total permissão para Ele fazer o que bem entendesse comigo, até mesmo me matar se quisesse. Mas que eu não pecasse mais; pois não queria. Queria ser seu servo perfeito, usado com máximo poder. E eu pedi, e pedi, e como pedi isto. E há uma chuvarada de textos bíblicos que colaboram com a ideia deste ideal e de que Deus está disposto a isto, a fazer e cumprir isto. Porém, o mesmo não aconteceu. Antes o contrário. Na melhor das hipóteses, o efeito prático deste texto seria algo do tipo 'funciona nas entrelinhas e no longo prazo'. Mas de fato, não ocorreu. E o que isto significaria? Que então Jesus ou Deus falhou? Que Ele não quis atender esta oração? Que não operou tanto o falar quanto meu efetuar?

O fato importante aqui é que um entendimento estritamente idealístico de perfeição neste texto me direcionava a entender exatamente que: "A culpa por eu não ser perfeito é de Deus.". Ora, eu pedi para Ele isso. Mas Ele não o fez. Eu pedi - e do fundo do coração eu - que eu não queria mais pecar, antes pequei. Usei e baseei-me com as promessas e textos (com o A+B+C certinho). Ou seja, se Deus não cumpriu a parte dEle, entramos, por efeito dominó, numa cascata que destrói/anula todo Cristianismo e a Bíblia. Haveria então outra saída?

Continuação do texto: "para que vos torneis irrepreensíveis e sinceros, filhos de Deus imaculados no meio de uma geração corrupta" (v.15). Note duas coisas: (1) eles já eram filhos de Deus e santos [Cap.1 v.1 deixa por extenso isso], (2) após essa ação (c/ Deus operando), no futuro, se continuarem ou buscarem fazer isso [mas que estranhamente é Deus quem faz] então sim eles se tornarão 'irrepreensíveis', 'sinceros' e 'imaculados'.
Reparou na aparente contradição? Como que eles já eram 'santos' se ainda precisavam operar (com Deus efetuando) para [no futuro] se tornar irrepreensíveis, sinceros e imaculados? Qual é a lógica e o sentido disso? Em outras palavras: Há santos que falam ou fazem coisas pelo quais merecem ser repreendidos? Há santos que não são sinceros, isto é, falam mentiras? (sendo que o Diabo é o pai dos que mentem) Há santos que não estão puros, limpos de todo pecado? ----> Se a resposta para todas estas perguntas for "não", então temos que afirmar que Paulo e Timóteo falaram uma grande besteira aqui nestes textos. Ou então precisamos entender melhor o que isto significa?

Luz Luz Mais Luz
Após a cortina que me impedia de ver minha condição ter caído. Dia-dia passei a me preocupar menos com o biscoito de maionese, pois comecei a absorver luz luz luz e mais luz. Luz de todas direções. E comecei a ver que cada célula de meu corpo era pecaminosa. [A experiência não nos trás apenas informações e nova luz, mas nos dá microscópios com lentes cada vez mais poderosas.] Cada pensamento meu. Cada palavra. Cada fonema. Cada estrutura morfológica, sintática, sinapse, cada palavra; o próprio 'pensar' (antes mesmo de 'o que pensar') era pecado. Pecado de pecado, é pecado. [Minha consciência me dizia para cada vez que espiava o Cristo pendurado na cruz.]

Exemplo disso foi com questão aos hábitos de saúde (os 8 Remédios de Deus, como costumamos dizer). Ficou claro para mim, extremamente claro, que para eu honrar e cuidar devidamente do templo do Espírito Santo (meu corpo) eu deveria respirar corretamente. Confeso que ter feito carate na adolescência, jogado muito futebol, fazer uma atividade física e tocar trompete me ajudou a respirar melhor do que a maioria das pessoas que conheço [o que é mensurável com alguns instrumentos, como o respiron]. Porém, não foi preciso muitos minutos para perceber que eu jamais seria perfeito nisto. Pois 60%, ou mais, das 22.500-30.000 vezes que respiro por dia (para um dia tranquilo) eu não respiro o melhor possível, da maneira que eu sabei que é o certo a se fazer; profanando assim com o templo do Espírito Santo. Além disso, conforme mais estudava, mais entrei no mundo das ideias, da Matemática, Filosofia, História, Estatística, em dezenas de livros do Espírito de Profecia; mais claro ficou para mim as limitações humanas. De modo que os 'ideais de perfeição' apenas atestavam minha pecaminosidade e necessidade de um Salvador, Sua Graça e Misericórdia. Quer outro exemplo? Postura. Hoje sei que deveria fazer +1hora de intensa atividade física por dia, e que não faço todos os dias.

Dou estes exemplos de cuidados físicos com os remédios de Deus, porque sei que são pontos que acho que a maioria enfrenta o mesmo problema e dilema com tais. [Apesar de muitos não reconhecerem.] Ao mesmo tempo, se eu ficasse prestando atenção em cada fôlego (que, graças a Deus, também funciona involuntariamente), eu usaria todo meu tempo e atenção com isto e estaria negligenciando todos os demais pontos [pecando em infinitos outros]. Ou sei, devido à alguns estudos, que a maior parte do nosso ser humano, pensamento, funciona não de forma ciente, consciente, mas por hábito, ou mesmo um 'mecanismo otimizado de processamento com menor custo de energia e máxima eficiência', é pensável, mas por eficiência só parcialmente ou em ocasiões especiais usamos tal recurso. Há diversas experiencias, especialmente com a "visão", "ilusões de memória" e "ilusões óticas" (como os experimentos de Hanson em Observação e Interpretação), que mostram que nós não temos CONTROLE sobre estes nossos 'processos otimizados' (o pensar, desejar, escolher, agir, falar... são alguns exemplos).

Logo, se acreditarmos como a Teologia do Perfeccionismo coloca de que 'pecado' é tão somente sobre aquilo que temos controle, e que Deus nos concede o poder para tão somente a parte que envolve 'nossa escolha' de fato então estamos minimizando a realidade, o que é pecado, assim como o poder de Deus e o 'controle' que Ele nos concede para 'fatias muito pequenas dos processos, em que, os produtos finais deste 'mecanismo otimizado de processamento com menor custo de energia e máxima eficiência' continua pouco alterado. O que cria diversas contradições e implicações com outras definições... pois de 'irrepreensíveis' não seria nada! Continuaria quase a mesma coisa. O poder de Deus é algo que não tem poder apenas sobre o que podemos chamar de CONTROLE ou ESCOLHA é algo muito maior, mais complexo e entrelaçado do que isto. Hoje como sempre cri, acredito que Deus tem poder para mudar muitas coisas do que tal Teologia atribuiria a 'Natureza Pecaminosa'. É uma transformação conjunta. Existe união íntima entre corpo, mente e espírito (expresso mil vezes por Ellen G. White) que não pode ser ignorada ou 'recortando' para deixar o corpo/natureza pecaminosa a parte como que tal só seria 'corrigida/salva/transformada' no dia do 'Piscar de Olhos' da Última Trombeta.

Finalizando
"De biscoito de maionese para 'respirar corretamente'? Evandro, você é louco e exagerado!" - Bem, dou estes dois exemplos, por ser um recurso Matemático para entendermos coisas/conceitos. É difícil, por vezes, saber se uma figura pequena é uma bola de raio = 0,01mm ou um cubo de lado = 0,01mm a olho nu. Usamos números grandes e escandalosos, damos zoom para ver, entender as propriedades e assim poder aplicá-las em outras e coisas e em escalas tanto grandes quanto pequenas. Do mesmo modo, digo que o que vale para o 'biscoito de maionese' e para 'a respiração' vale para todos os demais itens, 'pensamentos', 'ações' e 'decisões' do homem.

Se não acredito mais na perfeição de caráter? Pelo contrário. Acredito ainda mais. MUITO MAIS! Ao mesmo tempo, que ainda ma,is curioso, sou para entender os mistérios da perfeição de caráter em Cristo, assim como os mistérios da graça, os mistérios da justificação pela fé e os mistérios da obediência humana aliada ao poder e vontade divina. Usamos palavras diferentes, limitadas para descrever ideias tão complexamente entrelaçadas com o todo que me desperta a cada dia a curiosidade de estudar e entender ainda mais o quão pequeno eu sou, quão limitado minha mente o é, quão mais almejo respostas e o Céu; e quão mais se torna verdadeiro as palavras que "o justo viverá pela fé." [Fé que eu vivei, fé que talvez eu seja justo mesmo não me reconhecendo como tal.].

Um grande abraço.
Evandro


Nos próximos textos sobre este assunto, abortarei mais sistematicamente, objetivo e direto os principais pontos da teologia da perfeição de caráter e/ou perfeccionismo:
  • natureza pecaminosa; [ver]
  • caráter perfeito;
  • impecabilidade do homem;
  • perfeição plena antes do fechamento da Porta da Graça;
  • definições de palavras/ideias (pecado, dentre outros);
  • Ellen G. White e os 'outros textos esquecidos' sobre isso;
  • natureza e vida de Jesus.